
Hoje vou mandar um bitaite que já publicamente partilhei (de modo mais resumido) há umas semanas quando fui falar ao Ignite Portugal.
Gosto de olhar para o Mundo para lá do óbvio. Ultimamente quase todos os dias somos bombardeados com os números mais recentes de desemprego, taxa que já vai acima dos 14%. O óbvio tende a concentrar-se neste número. No entanto eu prefiro olhar para os 86% de pessoas com emprego. Acho que seria bem mais interessante tentarmos perceber qual a percentagem de trabalhadores activos em Portugal genuinamente felizes e motivados nos seus empregos.
Um dos maiores problemas de Portugal é um facto que estamos todos fartos de ouvir: o país é pouco produtivo. Consumimos mais recursos do que a riqueza que geramos, mas pouca gente parece estar interessada em analisar porque é que temos uma economia fraca e pouco produtiva. Ou melhor, análises até há, mas tendem a estar demasiado focadas em coisas como custos de contexto da nossa economia, impostos e burocracia. Claro que tudo isto pouco ajuda, mas creio que há algo bem mais profundo que pouca gente aborda.
Eu tenho uma teoria para isto. Cá vai a bomba: Portugal tem demasiados trabalhadores Thank God It’s Friday (TGIF). O trabalhador TGIF passa a semana a bufar e a rezar que chegue Sexta-Feira para poder ir para casa descansar e aproveitar o fim-de-semana fazendo coisas que realmente gosta de fazer. Para o típico trabalhador TGIF o seu emprego é uma seca que só serve para pagar contas. Poucos trabalham porque gostam realmente do que fazem, mas antes pelo salário que recebem. Alguns até gostam do que fazem, mas limitam-se a seguir as ordens do chefe e sentem-se frustados com a falta de autonomia que lhes é dada para fazerem mais do que meramente seguir ordens. ”o Chefe não deixa fazer mais” é a típica resposta para a falta de iniciativa. O que a maioria destas pessoas infelizmente falha em perceber é que este tipo de forma de estar na vida torna-as na prática em automátos pensantes que se limitam a seguir o que está no mapa porque foi isso que a sociedade lhes ensinou a fazer.
Mas estas pessoas até nem têm culpa. Vejo-as como vitimas de um sistema em que o status quo lhes convenceu durante décadas que é assim que devemos viver. Muito boa gente entrou neste sistema porque foi convencida de que o emprego deve ser algo que deve primeiro servir para sobreviver. Afinal quantos de nós não ouvimos já os nossos pais, tios ou avós a dizer coisas do tipo: “Isso de trabalhar no que nos apaixona é só para quem pode. No meu tempo trabalhava-se no que se arranjava e era para sobreviver” ?!
A realidade é esta. Vivemos num sistema inspirado num modelo de fábrica em que os donos das fábricas adoram autómatos pensantes, trabalhadores TGIF obedientes e com baixos salários a operarem as suas máquinas eficientes. Este sistema morreu, é por isso que estamos em crise e precisamos de uma revolução de mentalidades!
Agora imaginem que vivíamos num país onde nos tais 86% da população activa que tem emprego a maioria vai todos os dias trabalhar em coisas que realmente gostam? Como seria o futuro desse Portugal? Imaginem que vivíamos num país onde os tais 86% da população activa que tem emprego trabalhava em empresas que criam uma cultura interna que inspire as pessoas a irem para o trabalho? Como seria o futuro desse Portugal? Imaginem um país onde a maioria das empresas apenas contrata pessoas que acreditam na sua visão de longo prazo e que queiram ser parte da sua cultura em vez de só pelo salário?
Esse país talvez fosse um Portugal com mais pessoas a trabalharem em coisas que realmente gostam e em empresas onde realmente se sentissem motivadas a trabalhar melhor nestes tempos de crise, o que melhoraria a produtividade das empresas, e faria com que mais pessoas voltassem para casa todos os dias felizes e com vontade de ir trabalhar no dia seguinte para ajudar as suas empresas a enfrentar esta crise.
Pessoas mais felizes + empresas mais felizes e produtivas = PIB a aumentar + emprego a aumentar no médio-prazo. Conseguem imaginar o que seria esse Portugal?